quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Outro texto feito para o desafio de contos


A idéia era escrever sobre futebol, que eu odeio, exceto Copa do Mundo, que é uma questão de energia universal...
Resolvi da melhor maneira que pude, que foi sobre futebol no Wii, que embora não jogue, consigo navegar melhor nesta brincadeira.
Segue o resultado:


PARTIDA DECISIVA

A genética é uma ciência exata. Mas é voluntariosa como uma criança mimada! Gerados no mesmo ventre e pelo mesmo pai, Pedro e Mário são tão diferentes que mais parecem estranhos. Às vezes, acontece o contrário, pessoas guardam tanta parecença entre si sem qualquer parentesco conhecido. É, talvez, dessa natureza a semelhança entre Escobar e Ezequiel, entre Capitu e a mãe de Sancha, personagens machadianos de Dom Casmurro.
Deixando a especulação literária de lado, passemos aos nossos personagens.
Mário, o mais velho, tem olhos levemente repuxados, cabelos negros, pele bronzeada, traços herdados evidentemente de algum ancestral negro ou indígena. É um daqueles morenos entroncados que imprimem respeito e temor por onde passa. Pedro, por sua vez, tem a pele leitosa, é de feições delicadas e pouco viris. E aonde vai suscita o carinho ou a piedade das moças sensíveis.
Como deu acontecer, a diferença não é apenas no biótipo é também de caráter. E a convivência dos irmãos sob o mesmo teto era naturalmente tensa e conflituosa. Não pense que era Mário o brigão. Pela confiança que tinha em si ele não precisava provar sua capacidade para ninguém. Não era um covarde, porém reservava-se a usar a força apenas quando era desafiado. Já o caçula pertencia àquela casta de pessoas que desde cedo entendem a vida como uma grande competição.
É lógico que Pedro reconhecia a superioridade física e mental do irmão. E, por mais que seus pais lhes pedissem, as brigas, as disputas, eram diárias. Pedro era quase sempre o perdedor. Aquela sucessão de derrotas foi lhe despertando um ódio mortal do irmão. Intrigaram-se. Deixaram de se falar. Ao se cruzarem no corredor de seus quartos ambos mudavam de direção. Enquanto isso, Pedro estudava um jeito de vencer definitivamente Mário.
– Mário, sei que era para não nos falarmos mais...
Provocou Pedro forçando uma aproximação
–. Nosso acordo foi claro. Você não me dirige a palavra e vice-versa . Não haverá brigas e tudo fica na paz. Simples assim. – Respondeu Mário com contida irritação.
– Me ouve, por favor, sabichão. Quero propor um desafio, assim resolvemos nosso problema de vez.
– Pedro, nós nunca nos entendemos. Seria melhor para todos que não mais troquemos palavras, pois inevitavelmente discutiremos. Estou cansado de você. Me esquece, cara.
– Eu também não suporto essa sua cara certinha, perfeita. É exatamente isso que quero resolver. Estava pensando nos nossos jogos de futebol que nunca saem do lugar. Descobri um futebol diferente de tudo que já jogamos. É um novo jogo baseado num futebol do México antigo e o melhor é que o perdedor é eliminado.
– Por um acaso você está falando do “juego de pelotas” que ocorria no México pré-colombiano? E que terminava sempre com a morte do time derrotado?
– Exatamente! Viu, até que nem sempre é ruim ter um irmão “nerd”. Agora você facilitou a minha explicação. Quero fazer tipo um duelo mortal entre nós. Você escolhe seu time, eu o meu. Jogamos os dois tempos e o que perder é sacrificado. Se der empate vamos para os pênaltis
–Não sei se é uma boa idéia... – Respondeu Mário desconfiado.
– Tá com medo, é, mariquinhas? – Pedro provocou.
– Ah! Vai à merda. Se eu aceitar você me deixa em paz?
– Claro, mané, será a nossa partida final.
– Então marcamos para sábado, à tarde. Certo? E até lá me esquece.
– Certo! Mas me aguarde, Mário. Você vai se surpreender!
E os irmão utilizaram os cinco dias que faltavam para conhecer, em segredo, o campo, treinar os jogadores e estudar táticas futebolísticas. Pela primeira vez, o medo da derrota foi se instalando sorrateiramente em Mário.
Chegara o grande dia. Um olhar atento mostraria a raiva e o receio escondido por trás dos sorrisos dos irmãos. O “cara ou coroa” estabeleceu o campo e o apito iniciou a partida. Os jogadores se aqueceram, largaram, disputaram a bola, e, após um drible, escuta-se o grito:
– Gooooooool!
. Era o time de Pedro. Mas, após uma falta grave, um dos jogadores do lado dele foi expulso.
– Juiz ladrão! Tá roubando de novo! – Pedro esbravejou e o rubor lhe cobriu o rosto.
– Cala a boca, Pedro. Já está procurando desculpas para a derrota?! – Disse Mário tentando retornar ao jogo.
– Sai da frente, irmão.
– Gooooool! Foi a vez do lado de Mário.
E nesse clima de quase cordialidade seguiu-se os quarenta e cinco minutos da partida.
No segundo tempo, a tensão entre os dois era palpável, o esboço de sorriso já não deu as caras. E ainda nos primeiros dez minutos, o placar pareceu se definir em favor de Pedro.
– Esse goleiro é frangueiro. Não disse?! Já ganhei! Já ganhei. – Gritou Pedro exultante.
– Deixa de ser idiota, Pedro! Parece criança! – Mário rebate.
– Eu não disse que ia ganhar?!
Os jogadores se debatiam no campo, mas evitavam faltas graves, pois a arbitragem era severa. Mas eis que o juiz comete uma falha e não marca o impedimento do atacante.
– GOOOOOOOOOOOL!
– Já ganhei. Sou o vencedor, vencedor, vencedor.! – Grita Pedro mais triunfante ainda.
E o suor escorria no rosto de Mário naquela tarde de verão do cerrado. Ele ficou em silêncio, tentando não ouvir os gritos de vitória de Pedro que o irritavam profundamente e, nesse momento, fez o passe certo:
– Goooooooooooool!
Pedro foi pego de surpresa:
– Tudo bem, imbecil. Ainda estou ganhando e faltam somente uns cinco minutos. Você vai morrer já.
Mas como dizem: ‘o jogo - assim como a vida - é um corpo-a-corpo com o destino” e quando menos esperamos ele nos surpreende.
Deu-se então o empate e o rosto de Pedro, com movimentos mastigatórios contínuos, adquiriu uma expressão de ódio mortal.
Enquanto isso, Mário se concentrava para ganhar o jogo e colocar um fim em sua angústia. Não estava suportando o comportamento do irmão e certeza que não agüentaria ir para os pênaltis.
– Goooooooooooooooooooooooool!
Ouviu-se no finalzinho da partida quase sincronizado com o apito final
Pedro não aceitou o resultado. Não podia enterrar com aquele jogo suas esperanças de matar o irmão. Protestou:
– Não aceito. O juiz roubou. Temos de jogar de novo!
– Pedro, acabou! Você vai morrer agora. Vou escolher como será sua morte.
– Não aceito, seu imbecil. Temos de ter outro jogo.
– Eu sabia! Não sei por que eu ainda acreditei em você.
– Você vai ter que jogar de novo comigo, seu patife. Covarde!
Nisso ouve-se uma voz imperativa, acostumada a comandar:
– Garotos, parem de discutir, larguem o vídeo-game e desçam para lanchar. Agora!
O protesto veio em uníssono:
– Mas, mãe! .
– Calados! Se continuarem com essa discussão vou deixá-los novamente três meses sem o “wii”.
Entredentes, Pedro sussurrou: – Você vai me pagar! Se eu ficar sem vídeo-game quebro sua cara! Você ainda me paga, sabichão!.
– Vou me lembrar de nunca mais jogar com você, Pedro
E assim seguiram os dois para atender a ordem da mãe, evitando se olhar.
Mas se continuássemos a observá-los após a merenda, teríamos visto Pedro guardar um revólver na sua antiga caixa de brinquedos e voltar para convencer Mário a marcar uma nova partida.

22/09/09


Texto de Jeanne Maz

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Um conto para um desafio...


Estou participando de um concurso de contos e este texto foi desenvolvido para a segunda provocação:
VERDADE E POLÍTICA.
A idéia era um texto que contasse até onde um político pode ir para manipular a verdade...
Segue então o conto, sem cortes:

QUANDO AS ALMAS GOVERNAM

Mirante do Além era daquelas cidades que ficariam desabitadas e despercebidas para sempre, não fosse por um certo prefeito José das Almas, que a tornou famosa em todo aquele agreste pernambucano.
Esta figura lendária, o José Turgêncio da Silva, conforme foi batizado, era o primogênito de sete filhos. Pai roceiro, mãe professora, não teve muita instrução nas letras, mas era respeitado por sua sapiência, pois, por um capricho do destino, era dono de uma memória enciclopédica e excelente senso de observação.
Foi com um livro de mitologia grega, que lhe caiu às mãos, que sua vida ganhou um novo sentido. Comparou o Doutor Ananias com Zeus, descreveu o caráter do deus, na sua natureza. E o doutor, que nem médico ou doutorado tinha, mas era o fazendeiro mais rico local, e que nunca dera importância a ninguém, passou a ter por ele uma séria consideração. Ele descobriu que o patrão era exatamente igual aos outros e passou a comparar a todos com os deuses gregos, agregando simpatia por onde andava.
Aos dezoito anos, a pressão familiar o fez procurar trabalho. O senso prático o levou à carreira de agente funerário. Ele vislumbrou nesse ofício a oportunidade de ter um emprego que não lhe exigisse muito esforço e menos concorrência já que ninguém gostava de lidar com mortos. E não menos por simpatia e apego aos detalhes do que por falta de concorrentes, rapidamente abriu sua própria empresa: José das Almas.
Fez um curso de necromaquiagem e depois de tanatopraxia, onde aprendeu a arte de embalsamar cadáveres.
Rapidamente tornou-se conhecido por todos, pois, lá estava ele para dar apoio, maquiar e arrumar o defunto com o traje que mais combinasse com sua personalidade. Dominava como ninguém a arte de dar aquela expressão de serenidade e quase felicidade ao morto, que, por vezes, este ficava melhor no caixão do que em vida.
A chegada dele no hospital não era sinal de bom agouro, sendo por vezes temida, mas, assim que o óbito era constatado, não havia ninguém que não o quisesse por perto. Ele cuidava de todos os detalhes do translado, preparação do corpo, féretro, velório, divulgação e enterro. Nesses momentos, sem assombro, ouvia aqueles pensares altos ou frases inomináveis que, no instante de dor máxima, são liberadas, mas discretíssimo nunca comentou o que escutava e sempre estava disposto a oferecer o ombro para qualquer um que precisasse. Diferenciava-se ainda por acompanhar a família até a missa de sétimo dia e jamais se esquecer de encaminhar carta de mês e de ano para família do falecido.
Depois de trinta anos dedicados àquele ofício e já cansado da vida que o seu pragmatismo levara, que tivera o condão de lhe tornar um autêntico solteirão, ele tomou a decisão de se casar. Saiu à procura de moças solteiras nas casas de gente humilde - já que sabia seu lugar e tinha certeza que moça de família nobre não ia se engraçar com ele. – Essas meninas sensíveis demais e cheias de tremeliques não vão nem querer chegar perto de mim.
Numa quermesse da igreja, ele conheceu uma sobrinha-neta do compadre da sua mãe, filha de um sargento aposentado. Era uma morena de cabelos pretos e lisos, olhos espertos, sorriso sincero e andar altivo. Trocaram olhares, saíram para o cinema de mãos dadas e a moça se mostrou receptiva aos seus carinhos, sem fazer dengo demais. Ele pensou: - Gertrudes não é uma encostada, pois tem profissão de professora e ainda tem aquele corpo apetitoso... Não tenho tempo para perder: é ela!
Com a mesma serenidade e paciência com que se comportava num velório, dirigiu-se à casa do pai da moça. E depois de um aperto de mão no futuro sogro, ele disse:
– Seu Severino, queria lhe falar sobre a Gertrudes. Estou gostando da sua filha, ela é jovem, bonitona e tô pensando em pedí-la em casamento. O senhor concorda? Ou tem alguma coisa para se opor?
– Não meu filho, está me estranhando é? Faço gosto para este casamento que queira Deus me dê muito netos. E não se esqueça que ela tem as ancas grandes da família da mãe dela, boas parideiras, viu? Pode acreditar. – Declarou o velho Severino louco para passar a filha para as mãos do futuro genro.
Passado três meses do casório Gertrudes engravidou logo do primeiro filho de meia-dúzia que tiveram . E sentindo que o esposo carecia de ambição começou a incentivá-lo a aceitar os convites que os grandes da cidade o faziam nos momentos de tristeza. Sem puxa-saquismos começaram a ser visto em almoços e jantares cada vez com mais freqüência. A sinceridade e presteza dele chamaram atenção de todos que, sem nem pensar, se viu eleito vice-prefeito de Domingos Duarte, o nome original da cidade.
Bem já o disse Machado de Assis: “A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito”. E assim se deu. O Dr Eziquiel, médico cinquentão, recém-eleito prefeito, teve um infarto numa madrugada de chuva. E enquanto cuidava do morto, sem almejar posições de destaque, José das Almas, subiu ao posto de maior autoridade local daquela cidadezinha de três mil habitantes.
No começo, algumas pessoas acharam que ele pediria exoneração, mas assim que assumiu o mandato ele iniciou uma série de decisões que ninguém teve dúvida da sua intenção de dar cara nova à cidade. Era o primeiro a chegar à prefeitura e o último a sair. E como não era homem de confabulações, discussões ou sofismas, começou a editar decretos municipais para respaldar seu intento: Transformar a cidade numa obra de arte mitológica.
E, sem pesquisas ou consultas, o cemitério foi o primeiro da sua lista. Nunca se soube como adquiriu essa capacidade, mas dizem que ele via as pessoas por cores e quase sempre as descrevia intimamente sem as conhecer. Isto era o suficiente para as pessoas comprovarem seu dom.
Então chegou no cemitério com os ajudantes e ordenou:
– Joaquim, pinte o mausoléu da Dona Cícera, da Tereza do bispo, das irmãs Albuquerque e da viúva do padeiro, de vermelho vivo. – E, virando-se para o outro pintor, no mesmo tom, pediu:
– Tião, pinte de roxo violeta o da Dona Inácia, do Júlio do Genaro, da Rosinha.
E assim, em dois dias, o cemitério se vestiu de um colorido característico e único que perdura até hoje. No pórtico de entrada colocou a imagem de um jovem com asas que a população achou ser um anjo, mas a inscrição já entregava seu mentor: Tanatos, deus da morte.
Como não gostava de entrar em conversação com trabalhadores que reivindicassem direitos, nem de reunião com o Legislativo Municipal ou Tribunal de Contas, ou ainda haveres na capital, buscou logo arranjar alguém que o fizesse. Para isso nomeou o Juvêncio, contador, primo distante da esposa, seu secretário-assessor. E para oficializar o cargo nomeou-o Secretário Municipal de Governo, dando-lhe cartas brancas.
José gastava boa parte do seu tempo conversando com os que marcavam audiência, onde, sem nunca dizer não e com um sorriso no rosto, recebia a todos. Atendia alguns pedidos mais práticos e que não tomassem muito tempo ou de quem com maestria lhe soubesse inflar o ego. Para a maioria dos outros dava como perdido e quando inquirido respondia, sempre da mesma maneira:
– Venha na quarta-feira da próxima semana! – E se a pessoa comparecia de tarde na quarta-feira seguinte, ele dizia: – Mas era pela manhã. Agora não dá mais. Tenha paciência, venha na próxima quarta-feira.
Contudo, os problemas da população pouco lhe interessavam. Dedicava seu tempo em estudar e organizar projetos grandiosos, baseados na mitologia grega.
A pedido da esposa reformou o colégio municipal e depois colocou uma estatua colossal de Atena, a deusa da sabedoria, e a pintou de púrpura, em homenagem à deusa. Porém, aumentar o salário dos professores e dos funcionários públicos nem pensar. Dizia: - A maioria trabalha pouco, não se esforça para nada e só querem vida-mansa!
O hospital local, pintou de verde, a cor da saúde, e fez um monumento a Asclépio, deus da medicina, com seu cajado de cobras.
Na porta do mercado público, criou uma ponte em forma de arco e nas duas pontas colocou Hermes com suas asas nos pés. No entanto, como a oposição começou a criticar veemente uma ponte que ligava nada-a nada, ele colocou um lago abaixo com uma fonte dionisíaca e que oferecia água à população nos dias de seca.
Aproximando-se o fim do mandato resolveu deixar um marco grandioso do seu governo. Despejou os vizinhos do prédio da prefeitura, não pagou as indenizações e construiu ali uma praça, enfeitada de fontes com ninfas e uma estátua sua como fundador.
– Estou me antecipando a vocês. Provavelmente vão querer me homenagear somente quando estiver cheio de rugas e careca. Não cultuo imagens decrépitas. Então, elimino um futuro problema de vocês e o faço agora para eu mesmo usufruir do monumento. – Ele argumentou para o espanto de todos.
Passado os quatro anos, ele se viu somente com trinta e nove por cento dos votos. Seu forte concorrente, Manuel Bixiga, um jovem advogado, da antiga família dos Braga Veloso, recém-chegado do Recife, prometia aumentar salários e restabelecer a antiga tradição da cidade.
Faltando dois meses para a eleição, desesperado pelo poder que o viciava sem dó, acordou após uma noite de sonhos infernais com uma idéia. Redigiu cartas onde o enunciado citava Vitor Hugo “ Os mortos são uns invisíveis e não uns ausentes”, pois já havia aprendido algures que demonstrar saberes imprimia respeito, e frase de efeito também.
Pediu para o secretário encaminhar as cartas, que, após a saudação inicial, seguia-se detalhes particulares, para cada uma das dez famílias mais numerosas e influentes da cidade. Sentou-se no gabinete e ficou aguardando.
Todos vieram ansiosos conversar com ele e tirar dúvidas. Era quando ele confessava que o finado - geralmente o patriarca mais importante- havia aparecido em sonho e dado orientação de falar com a família isso e aquilo e no final usando frases condignas com o falecido solicitava, em transe, que apoiassem o senhor prefeito. E para dirimir dúvidas fornecia dados, gostos pessoais, pensares que ninguém sabia.
Vendo que a estratégia estava tendo resultado resolveu mudar de rotina diária.
Saindo para o trabalho, após seu café da manhã substancioso, ao invés de passar apressadamente, começou a parar na rua e conversar com o eleitorado sobre as notícias do além: - Dona das Dores, o finado João mandou dizer que gostou muito do seu jardim de acácias. - Querido Meneses, seu avô Tertuliano, disse para casar sim com a Fabiana que ele aprova a moça.- Dona Mundica é para senhora tentar perdoar o falecido e rezar dez ave-marias toda sexta-feira para ele...
E como com mortos não se brinca, os inimigos, que planejavam contratar um capanga para matá-lo, ficaram com medo das iras dos mortos e por consenso resolveram deixá-lo em paz. Sendo assim ele foi reeleito com uma maioria de oitenta e nove por cento e como primeiro ato do novo governo trocou o nome da cidade para algo mais propício: Mirante do Além.
Dizem que até morrer, aos noventa e sete anos, ele, sua Gertrudes e os seus filhos, governaram a cidade.
Na sua morte, toda população local e dos arredores compareceu e reza a lenda que houve chuva, choros e soluços em todos os cantos da cidade por quase uma semana. Contam ainda que muitos destes lamúrios, eram trazidos pelo vento, nunca se soube de onde vinha...
Com a figura de José das Almas confirma-se a máxima:

"Em política, o importante não é ter razão, mas que a dêem a alguém." E se for aos mortos melhor

Texto de Jeanne Maz

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Viagem na poesia...


Assim como prometi vou registrar minhas viagens.

Ontem viajei na poesia...

Fui convidada para o 5º Sarau da casa da Aldemita.
Ao chegar, embora conhecendo somente uns três no salão lotado, me senti acolhida.
"Nosso Sarau": Sarau da Aldemita:

A casa possuia aquele sorriso aberto, gostoso e aconchegante da anfitrãe um piano na sala é sempre uma promessa de deleite.

Entrei e inacreditavelmente não levei a máquina fotográfica - fato raro
para quem usa esse instrumento como outros usam canetas, chaves, calcinhas...
Mas vamos lá, revertendo a situação fotografei todos com os olhos e descrevo algumas cenas para você ter idéia da mágica. Por não lembrar o nome de todos descreverei apenas imagens.
Abriu a noite com uma morena linda tocando duas peças românticas ao piano.
Seguiu-se uma voz maviosa falando da biografia e das poesias de Capinam.
De repente uma voz vigorosa, trazido por um nordestino, invadiu a sala com uma declamação magistral de Patativa do Assaré.
Outra nos esclareceu sobre a inutilidade atual da Mulher Boazinha, recitando Martha Medeiros.
E uma voz visual recitou um poema de um encontro-desencontro de um par.
Claro que nesta reunião divina não podia faltar Deus entre nós e ele surgiu atendendo pedidos por telefone numa voz masculina e a seguir uma feminina nos apresentou ele em várias roupagens e cores.
Nessa confusão teve até um empregado que durante o trabalho viajou para Paris sendo acompanhado por Monalisa.
Tudo isso sendo intercalado no momento preciso com dois músicos: um no violão, outro no saxofone, acompanhados de uma voz morena e poderosa. Gente esses três eram demais!

Mas o ponto alto da noite foi a dona da casa, Aldemita, nos presenteando com a Valsa nº 2 de Chopin, ao piano. Inesquecível!!!

Após isso tudo, encerramos a noite com um músico-jornalista cantando um samba de Brasília e uma voz feminina cantando: "Eu sei que vou te amar".
Obviamente teve muito mais que a memória e a pouca capacidade jornalística não possibilita exprimir.
Nisso tudo eu, uma pernambucana-piauiense de Brasília, me atrevi homenagear minhas terras, declamei: Manuel Bandeira e Torquato Neto. Ofereci uma poesia carioca contemporânea do Érico Braga e finalizei com uma poesia minha que fecha esta noturna descrição:

AUTORRETRATO
(em vestido de festa)

Me sinto vermelha,
cor primária, primeira,
pulsátil, inquieta, majestosa,
sofrida

Prefiro a intensidade,
vivo de paixões,
pagando o preço, portanto,
de grandes mágoas, dores intensas,
não faz mal,
não tenho medo,
transito bem na sombra como na luz,
Recomeço...

Devoro livros e comida,
com volúpia, com sofreguidão,
mas, por vezes,
degusto bem lentamente,
a depender do menu e da companhia

Bebo tudo, tomo todas
(menos refrigerante, faz mal)
Ah! mas o vinho tinto
combina melhor com meu cheiro,
com meus gostos,
é como um beijo eterno em Baco

Odeio TV, prefiro o silêncio
ou o 'barulho' de uma boa melodia

Então, eu sigo assim, nesta estrada,
a sina de todos:
um pouco de médica, um pouco de poeta
um tanto de louca...




Poesia Jeanne Maz

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Cidade dos cristais








Oi,
Retomo agora meu blog com novas decisões. Já viram que sou mulher de tomar decisões e ante o fracasso, que em minha vida é quase inevitável, saio para tomar fôlego e volto com mais decisões, claro, rs.

Resolvi publicar não somente textos trabalhados na oficina -ocasionalmente até o faça - mas, os contos e poemas reservarei para o blog da oficina de literatura: www.cobrascomasas.blogspot.com, ok?
Aqui neste meu cantinho resolvi fazer tipo um diário e a mola mestra será minhas viagens, já que, por natureza do ascendente em escorpião, não consigo sossegar muito tempo sem viajar para dentro e para fora de mim...

Envio impressões agora da viagem mais recente, realizada dias 05 e 06 deste mês.

Fui para adquirir cristais em Cristalina que dista 137 km de Brasília. Nesta pequena cidade de Goiás encontra-se a maior reserva de cristal de rocha do mundo.
Para os místicos é considerado o ponto de equilíbrio do mundo, pelo magnetismo de seu solo.
O que se perde em matéria de infra-estrutura de restaurantes, bares e hotéis, que ainda é área pouco desenvolvida, se ganha em beleza natural.
É uma região rica de variedade de cristais e de espécimes do cerrado. O pôr do sol é um encanto, as flores são lindas e o brilho das pedras e nos olhos é garantido.
Não tenho como esquecer da companhia, que foi fundamental: Engels Espíritos (nosso cicerone), Edson Alves e Keit Guimarães.
É uma dica boa para quem gosta de natureza, cristais e cerrado.
As fotos foram tantas e tão belas que difícil foi escolhê-las.
Espero que aprovem.
Um xêro,
jeanne maz

:

segunda-feira, 30 de março de 2009

Um texto para não perder a magia...


Esse texto foi criado há muito tempo, para oficina literária, o desafio era falar de mar sem usar: praia, areia, sol, céu,lua, ondas...
Por alguma razão é um texto que me comove, gostaria de compartilhar...
REENCONTRO

Era um fim de tarde primaveril, naquela hora do crepúsculo em que tudo adquire tons alaranjados e a água reflete tantas matizes de cores que parece a palheta de um pintor.
Heloísa segue melancólica, atravessando a Avenida Atlântica, naquele mesmo ponto onde inúmeras vezes veio brincar com a filha nos fins de tarde, ao sair da sua mãe, antes de ir para o Leblon.
Ao sentir seus pés naquele tapete branco, ainda morno, naquela hora do dia, sentiu uma emoção muito forte. Após vinte anos voltava àquele lugar. Demorou muito a se sentir preparada para pisar ali novamente.
Lembra que tudo tinha sido muito rápido, a notícia que sua filha, Carmem, tinha uma doença grave a pegara de surpresa. A seguir o diagnóstico de um tipo raro de Leucemia e em menos de três meses a notícia:
— Sinto muito...mas sua filha morreu!
Depois disso uma tristeza lancinante, sem limites! Seguida de um mergulho num vazio que deixou várias lacunas na sua vida. Parece que sua vida entrou num redemoinho tão confusamente doloroso que pouco se lembra desta época. Não que a dor tenha sido minimizado com estes esquecimentos, não...o que aconteceu é que ela não estava naqueles dias neste mundo...
Agora, enquanto sentava na terra ainda molhada, pensou:
— Hoje, exatamente hoje, ela faria trinta anos!
E como um carinho na alma sentiu que naquele momento tinha de estar ali. Naquele mesmo lugar, onde várias vezes, Carmem fez seus castelinhos encantados que a água teimosamente desmanchava. Ela gostava de passar o dia na casa da avó só para poder ir brincar na terra macia. Ficava concentrada fazendo sua obra de arte, como hipnotizada.
— Carmem, vamos! Já está escurecendo, temos de ir.
— Mas mãe, deixa eu ficar mais um pouquinho, tô terminando o castelo mais lindo do mundo...
— Só dez minutinhos e nós vamos de qualquer jeito, entendeu garotinha? Acho que por você a gente morava aqui, né?
— Ah! eu adoro ficar aqui...espera só um minutinho, por favoooooooor...
Heloisa recorda que após uns seis longos meses, depois do enterro, recomeçou a vida; mas onde olhava, onde andava, onde resistia, parecia que estava faltando algo...se sentia como se não merecesse estar viva, era um erro ter sobrevivido e sua filha não...
Mas como um presente, um ano após esta perda imensa, se descobriu grávida novamente e assim nasceu Mariana, que veio para ser sua grande companheira.
O sofrimento nunca cessou, mas se atenuou com a chegada de alguém que precisava de cuidados e que rapidamente se mostrou muito inteligente e brincalhona fazendo sorrir a casa inteira.
Aliás, tinha marcado com Mariana para fazer umas compras no Barra Shopping. — Já estou em cima da hora. Tinha que ir.
Quis sair, mas algo a prendia àquele lugar. Tirou a sandália e se dirigiu àquele vai vem de água azul, gelada. Ao molhar os pés sentiu um cheiro de lembrança antiga, salgada...reviveu outro Rio de Janeiro, outra Heloísa, outra filha...e chorou copiosamente.

Calçou a sandália e começou a fazer o caminho de volta. Ainda não tinha chegado a rua quando ouviu uma gargalhada baixa e familiar e um — tchau, mamãe – como não ouvia há séculos...
Virou-se bruscamente, como se pudesse repentinamente voltar no tempo, mas não havia ninguém.
Tudo começava a escurecer, embora o reflexo lunar já começasse a ser desenhado na água.
Voltou-se para ir embora e ouviu novamente:
— Até logo mamãe.
Desta vez ela não olhou para trás, para não perder a magia, e respondeu sorrindo:
— Até logo filha.
E saiu pisando no chão macio, bem lentamente, e com a certeza que iria voltar ainda muitas vezes, naquele lugar, para reencontros muito especiais...
Texto de Jeanne Maz

segunda-feira, 16 de março de 2009

Carnaval no paraíso


Para Oficina Literária, 02/03/2009 que passou para 09/03/09
Jeanne Maz

Bem, o professor se esqueceu – creio que o amor o atropelou - e não estabelecemos o tema na aula; no entanto como no meio do caminho surgiu o Carnaval aproveitei o ensejo, e a história boa que me caiu no colo, e construí o texto abaixo.
Perdoe-me se estou usando muito o meu cotidiano nos textos, mas é que ando muito feliz e por ser condição tão rara na minha vida não consigo parar de querer amarrá-la no que escrevo.
E enquanto os personagens não baterem na minha porta sigo me usando em palavras...

Carnaval no Paraíso

A proposta era um carnaval diferente – e apesar de oriunda da terra do frevo e do maracatu – não pude recusar.
– Vamos passar o fim de semana de carnaval numa casa de praia calma e tranqüila no sul da Bahia, sem luxo, sem outras pessoas e sem folia. É tudo muito simples, quase uma casinha de sapê. Topas?
Lembro da música: “...jogue suas mãos para o céu, e agradeça se acaso tiver, alguém que você gostaria que estivesse sempre com você, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê...” Que maravilha. Agora eu tenho! É ele.
– Eu topo.
– Sairemos na sexta bem cedo. 6h tá bom? Combinado?
Arrumo malas. Aviso a família e amigos.
– Chefe? Nem pensar, pois senão ele não vai deixar. Falto sem avisar. É melhor ?!? Sério. Depois explico a ele.
E começo a sonhar com a viagem. Vejo o itinerário. O caminho de Brasília para Nova Viçosa (BA), esse era o nome da cidade, teoricamente era 1370km, averigüei no Google para não ter surpresas, peguei um mapa e embarcamos no meu carro apenas com uma hora de atraso. O que creio ter sido já um imenso lucro.
Resolvemos pegar um atalho (?) por Montes Claros e ganhamos extra 300 km: a mais. Tudo bem. Tráfego menos pesado, pois não passamos em Belo Horizonte.
Porém, ainda nas estradas de Minas, quase chegando na Bahia, fomos parados por uma blitz ao ultrapassar em local proibido.
– Documento do carro?
-Meu Deus! Muita calma nesta hora.
Descreverei a cena: eu procurando horas naquela bolsa enorme de mulher, arrumada em cima da hora. Depois de vasculhar todo o meu arsenal feminino de papéis e afins. Olho para os dois: - Não encontrei o documento!!!
– Poxa trouxe por engano o documento do ano passado, esqueci o atual. – Moço o carro é meu. Tá aqui minha carteira. Tá aqui o documento de 2007 e 2006. Não roubei meu próprio carro. Sei que dá apreensão do veículo, mas nos livra dessa, tá?
Depois de minutos que foram séculos o Seu Silva teve pena e nos liberou. Não sem antes ganharmos a multa da ultrapassagem. Mas ufa!!!Que sorte.
– Desculpa a culpa foi minha. Esquecer o documento foi um erro terrível. Sei que é imperdoável. Desculpa mesmo.
– Não te preocupa, tá tranqüilo, a culpa foi minha de termos parado e ter o documento solicitado. Se for assim eu também errei...
Gente isso merece uma pausa no filme: Em outra época, com outro parceiro, eu seria “a Prometeu” da estrada pois teria o fígado comido, e com certeza em pedaços temperados. E agora não levo nenhuma bronca? “Obrigada universo, que maravilha, este é realmente o homem da minha vida”
E assim chegamos a Nova Viçosa às 2:40h da manhã do sábado.
Esperavá-nos uma casinha branca, uma fachada vermelha – poxa adoro vermelho! – e uma varanda grande, gostosa. Depois um jardim lindo com coqueiros, cajueiros e vários tipos de bromélias.
– Nem acredito que é uma alameda de amendoeiras no portão. E depois o mar, bem ali, quase ao alcance das mãos. O céu estrelado. A lua nova. – Que maravilha. Deus existe!!!
– Bem, vamos entrar. Cadê a chave?
– Não encontrei a chave. O caseiro não deixou a chave no lugar marcado. Acho que ele fez de propósito, por segurança, sabe? O Diassis trabalha aqui há séculos e cuida disso como se fosse dele. Ele não deve ter confiado em deixar a chave. Não poderemos entrar! Talvez eu me lembre onde ele mora, ou encontre alguém que saiba, senão só pela manhã quando ele chegar.
-Vamos para cidade?
Penso: Tô com fome, cansadíssima, com quase 24h no ar, mas tudo bem. Fazer o quê? Será que Deus existe mesmo? Acho que não. E se eu matasse o caseiro amanhã? Será que alguém me prenderia por um crime justificado deste?
Com esses pensamentos sorrio e encaro a nova batalha que se acerca.
A cidade que imaginei pequena, ou melhor, me foi descrita com olhos de uns 20 anos atrás, tinha uma parte antiga construída pelos holandeses e no lado desta uma praça cheia de gente, barracas e trio elétrico. Na avenida principal várias lanchonetes e pizzarias.
Sem encontrar nenhuma chave perambulando no local fomos à Praia Lugar Comum onde havia uma orla marítima com barracas, e a bebida ainda imperava com força total e com muito movimento. – Comida? Não tem mais nesta hora.
– Vamos à Praça do Pau Fincado? (nomes lindos, né gente?)
E fomos. Paramos num bar-restaurante, para jantar , o único aberto às 4h. A música sertaneja tocando era alta e aterradora, mas àquela hora o que esperar?
- Queríamos uma cerveja gelada e peixe frito. Tem como fazer?
- Temos peroá, serve? "Vô trazê pru sinhô olhá". E dá sim pra fazê agorinha.
Nem acreditei: cerveja geladíssima, peixe delicioso e - pasmem! - assim que sentamos a música foi trocada para Pink Floyd.
Pensei: será que a fome e o cansaço estão alterando a minha consciência? É um delírio?
Incrível gente, era tudo real. Pensei novamente: Deus existe! e nem está sozinho, deve ter anjos e arcanjos mesmo!
Voltamos para casa, sem chave, quando o dia já quase nascia e dormimos no chão da varanda, abraçados para amainar a dureza do piso e a falta de lençol, mas já sonhávamos com os anjos que eu sabia existir.
Quando o caseiro chegou já estávamos no mar de água quente, com um céu azul e um sol que prometia esquentar aquele carnaval. Já nem me lembrei de matar o simpático homem.
E confesso que a partir do instante que adentramos na casa, tudo foi perfeito e o paraíso se fez na terra naqueles quatro dias maravilhosos...
E ao voltar para minha Brasília não é de se estranhar que freqüentemente me vem a memória uma outra música:
... I wanna to go back to Bahia...
Texto de Jeanne Maz

Fim de Semana


Para Oficina Literária, 16/02/2009 (in atraso)

O desafio era: Fim de Semana. Teoricamente fácil. De certo modo pensei que era um tema simples e que não geraria dificuldades.
Como eu estava enganada. Nem sempre o que supomos fácil, ita est...


Promessa Cumprida


Após vãs tentativas a frustração se impôs e chego ao veredicto que o tema fim de semana não me transportou para nenhum universo alternativo, nem nenhuma ficção veio ao meu encontro e nem a minha Mauína, cidade imaginária, conseguiu me inspirar
Rendo-me então ao contexto que está à minha mão e vou falar do meu pessoal e particular fim de semana. Isso deve dar uma crônica e não conto, mas a idéia é produzir texto, portanto não está configurada a especificação de algum gênero literário, né? O que já me antecipa se em um belo dia a poesia me bater à porta...
Vamos então começar pela sexta-feira, que foi 13. Um dia que carrega uma gama de superstição tão ampla que se para alguns significa infortúnio certo para outros é sinal de bom agouro.
Mas de onde vem toda essa superstição em torno da sexta-feira 13? Vamos tentar decifrar um pouco este enigma? Acredita-se que vem inicialmente de duas lendas nórdicas e que, portanto, influenciaram todos os países anglo-saxônicos.
A primeira parece explicar o estigma do número 13 e conta que houve um banquete em Valhalla - ou Valla -, o palácio para onde íam os guerreiros mortos em batalha, para o qual foram convidadas 12 divindades. Loki, o deus do fogo e da discórdia, uma espécie de deus dos infernos, não foi convidado e, enciumado, apareceu sem ser chamado e armou uma cilada onde morreu Baldur, o deus do Sol ou da luz, o preferido de Odin, deus dos deuses. Deste relato surgiu a idéia de que ter 13 pessoas à mesa para um jantar era desgraça na certa e que no período de um ano um destes convidados morreriam.
Diz a segunda lenda que na Escandinávia existia uma deusa do amor, da paixão, da beleza e fertilidade chamada Freya ou Frigga (que deu origem a friadagr, friday, sexta-feira nas línguas anglo-saxônicas). Quando as tribos nórdicas e alemãs se converteram ao cristianismo, a lenda transformou Frigga em uma bruxa exilada no alto de uma montanha. Conta então que para vingar-se, ela passou a reunir-se todas as sextas com outras onze bruxas e mais o demônio - totalizando treze - para rogar pragas sobre os humanos por tê-la desprezado.
Então se chegou à Escritura Sagrada, onde este dia, para os cristãos, virou um símbolo de desgraça, já que 13 eram os convivas da última ceia de Cristo e, dentre eles, Jesus que morreu na sexta-feira. Judas foi tipo um “Loki” deste especial banquete. Só que convidado...


E vem daí o costume de muitas pessoas evitarem viajar em sexta-feira 13; e de que vários teatros no mundo a numeração dos camarotes omite, por vezes, o 13; e em alguns hotéis não há o quarto de número 13 ou pulam do 12º para o 14º andar.
Tive a oportunidade de ficar hospedada no ano passado no Hotel Roosevelt em Nova York e comprovei in loco o que eu achava existir só em filme. O Hotel realmente aboliu o décimo terceiro andar do prédio para evitar azar e realmente, por coincidência, fui extremamente feliz quando estive lá. Tudo bem que tenho sorte sempre que viajo, mas...
Bem, como se vê, a crença na má sorte do número ainda está bastante arraigada mesmo nos países que mais cultuam o científico e racional. Mas isso é tão arbitrariamente entendido que o mesmo algarismo, em vastas regiões do planeta - inclusive países cristãos – é tido também como símbolo de boa sorte.
O argumento dos favoráveis, principalmente àqueles ligados à numerologia é que a soma dos números dá 4, sendo este símbolo de próspera sorte. Na Índia o 13 é um número religioso muito apreciado e não raramente vários templos indus têm 13 budas. E na China, é muito comum os letreiros místicos dos templos serem encabeçados pelo número 13.
Em contrapartida, o Centro Holandês de Estatísticas sobre Seguridade realizou um estudo estatístico em 2008 sobre a data e confirmou que acidentes de trânsito e relatos de incêndios e roubos são menos freqüentes no dia 13 do que em outras sextas-feiras do mês. "É difícil acreditar que isso ocorra porque as pessoas são, preventivamente, mais cuidadosas, ou simplesmente ficam em casa nesse dia, mas estatisticamente falando, dirigir é mais seguro na sexta-feira 13", disse Alex Hoen, um dos responsáveis pela pesquisa.
Bem, nesta minha sexta-feira 13 eu tinha motivos de sobra para comemorar. E sabendo de antemão que era mais seguro para meus amigos dirigirem para minha casa neste dia, convidei, só por garantia, claro, um número maior de pessoas para ultrapassar os treze e chamei uma turma para tomar chopp comigo após um ano sem poder desfrutar deste néctar.
- Por quê? Eu explico.
Em 2008, no dia 13 de fevereiro, me submeti à minha 27º cirurgia e havia uma suspeita de câncer pairando no ar. Como toda boa nordestina criada na religião católica não pensei duas vezes: vou fazer uma promessa para me safar deste mal! Inicialmente pensei em ficar um ano sem bebidas alcoólicas, mas o bom senso chegou à tempo e prometi passar um ano sem cerveja, nem chopp. E já sem o fantasma de malignidades, mas sem útero, tive de pagar a promessa. E achei oportuno fazer uma comemoração digna para este momento especial de voltar à ativa.
E agradeço a todos que ouviram o chamado da deusa Frigga e se fizeram presente para este momento em que um barril geladíssimo de chopp e as comidelas maravilhosas que Noeme e a minha amiga Ivana nos brindaram.
Acordo no sábado com a cabeça rodando, um peso na cabeça semelhante ao que Atlas levava e aquele característico gosto de cabo de guarda-chuva, mas cadê tempo para me dedicar como se deve à velha companheira ressaca. – Tenho de trabalhar.
Despeço-me do meu príncipe com cuidado de deixar um sapatinho marcado e corro para o plantão que hoje é dia de borralha para mim. Explico novamente sou médica e o meu sétimo dia da semana não é dia de repouso não. Neste em particular, por infortúnio, eu estava de plantão de 7 às 13h e também de 19 às 7h.

Não sei se sabe caro leitor, mas os nomes do dia da semana antes eram todos em homenagens aos deuses. Mas chegou a igreja católica e mudou tudo. Ela resolver transformar o primeiro e o último dia da semana em dias santos e não dia de feria ou feira, mercado. Foi assim que o dia de Saturno - o primeiro deus - Saturday se tornou sábado. A palavra vem do latim sabbatum que derivou do shabat ou sabá hebraico que quer dizer descanso ou dia de oração.
No meu caso, o meu sabá não foi de descanso nenhum e nem oração e sim dedicado exclusivamente ao Deus Asclépio.
Mas nada como um dia atrás do outro.
Acordei no plantão e resolvi aproveitar este dia que é tão especial para pessoas de quase todos os países do nosso planeta. Domingo vem do latim dies dominicus que significa Dia do Senhor. Mas para os de origem não latina é o dia dedicado ao deus Sol, Sunday.
Neste domingo em particular me juntei aos antigos pagãos e transformei o meu primeiro dia da semana num dia de festa e animação. Lembra da sexta-feira? – Sobrou quase meio barril. Chamei alguns poucos amigos para minha casa com intuito único do “ não desperdício” claro, e entre risoto, risos e chopp nem notamos que caiu uma grande chuva no nosso dia de sol.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O que uma fobia não faz...



Tenho claustrofobia e após dois episódios recorrentes, reais, de ficar presa no elevador desenvolvi um medo irracional da caixa de ferro. Usando a minha terapia ortodoxa nordestina, além de me obrigar a encarar o medo, resolvi brincar com o tema escrevendo a situação ideal de uma empreitada destas...


"DO QUE UM PÂNICO É CAPAZ...


- Segura aí, por favor. A voz era firme, determinada, timbre de quem está acostumada a mandar e ser obedecida. Sem hesitações. O perfume que acompanhou a voz tinha um cheiro de rosas com toques adocicados, do tipo suave, elegante, imponente.
Ela seguiu o aroma. Adentrou segura no exíguo espaço onde eu estava só. Com um disfarce de sorriso nos lábios agradeceu com um menear de cabeça que decorava um “ obrigada” educado.
Apertou o 18º andar e encostou-se à lateral esquerda com um olhar distante, não sem antes averiguar rapidamente aquele antigo elevador e parecer se decepcionar pela decrepitude do espaço ou quem sabe pela falta de espelho.
A subida iniciou-se lenta, claudicante, barulhenta até que entre o 11º e 12º andar fomos cercados pelo silêncio e pela inércia.
Ela olhou-me com expressão amedrontada e me senti quase culpado pela situação que não causei. Compreendi rapidamente o que aconteceu e pressionei o botão de emergência que emitiu um barulho estridente, engasgado que parava logo que eu tirava a pressão.
Sem pedir licença ela me empurrou e começou a apertar todos os botões do elevador e sua expressão foi se tornando lentamente aterradora. Seus olhos pareciam estar em outro mundo, horrivelmente ameaçador.
- Por favor, me tira daqui, eu tenho claustrofobia, estou em pânico. Me ajuda...Eu vou fazer um escândalo - E começou a gritar desesperadamente, um grito agudo, tenebroso. Tive medo.
Eu lhe disse para ficar calma, que pelo menos não estávamos no escuro e que provavelmente alguém já estaria atrás de ajuda. Mas, sem escutar, ela vociferou:
- Você não está entendendo. Eu tenho pânico e sou capaz de matar um, entendeu? - E começou a esmurrar o elevador, gritar e dar chutes tudo ao mesmo tempo e o barulho no pequeno vão se tornou ensurdecedor.
Não sei em que momento tudo aconteceu, mas me vi na obrigação de segurá-la e tentar fazê-la voltar a si. Ela começou a se debater nos meus braços e me esmurrando gritava para eu largá-la. Foi quando sentindo aquela maciez dos seus longos cabelos cacheados em minha face e inebriado pelo seu olor eu segurei seu rosto e forcei um beijo ao mesmo tempo que a puxei para mim.
O tapa que eu esperava não aconteceu.
Primeiramente o corpo dela ficou inerte e pareceu que iria sucumbir à gravidade. Mas não. Ele imediatamente sucumbiu a outra lei e o seu corpo grudou-se ao meu.
A sua boca pequena, que emitia grunhidos alguns segundos antes, parecia se abrir inteira em cima dos meus lábios e um mistura quente, doce e aveludada deslizou para minha língua e invadiu toda minha boca.
- Que mulher louca é essa? Foi a última coisa racional que consegui pensar. Após isso o tempo parou.
Nada mais existia.
Ela adentrava meus sabores como se sempre houvesse feito isto. Como se nossas bocas fossem uma só, desde sempre e quisesse me sorver inteiro com aquele ato
Entregamo-nos àquela carícia com uma sofreguidão de sabedores conscientes que nossas vidas dependiam disso para continuarmos vivos. Até que as mãos resolveram participar do ritual e exploraram rostos, cabelos, pescoços...
O tato seguiu o instinto e desbravou os espaços, tirando do alcance tudo o que impedisse o contato máximo dos corpos. E o encaixe perfeito dos seus seios em minhas mãos confirmou que estava perante um momento único, singular.
Os corpos estavam nus. Outros sentidos foram tomando lugar no corpo e após uma vigorosa dança frenética de mãos, línguas, cheiros e gostos o instinto maior nos tomou de assalto e os nossos sexos se uniram como siameses que tiveram de se separar por uma injustiça divina.
O movimento primeiramente delicado deu vazão a um ritmo alucinante e tão intenso que após o êxtase sincrônico estávamos ambos inertes no solo, em cima das roupas, e somente o barulho da nossa respiração nos evidenciavam vivos.
Qual não foi minha surpresa - e a convicção que morrera e estava no paraíso - quando a seguir senti o corpo dela se juntar ao meu e sua boca já buscar a minha.
Neste momento ouvimos uma voz: - Podem ficá tranquilos, tamos resoveno tudo. Vocês vão sai num minutim.
Mal consegui visualizá-la em pé, vestindo suas roupas, e a porta já se abriu levando a mulher misteriosa e o nosso instante mágico.
Fiquei de prontidão na porta do elevador diariamente esperando que ela voltasse.
Exatamente uma semana depois, no mesmo horário, o perfume doce me nocauteou e sem precisar de palavras assumimos nossos papéis anteriormente desempenhados com maestria.
Tentamos por vezes repetir o feito em outros sítios, mas a magia se quebra e retornarmos ao ninho toda quarta-feira para que o mesmo elevador, na hora de sempre, seja cúmplice deste eterno ato divino.
Conto de Jeanne Maz"

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sobre descobertas


Algo pessoal,

Até pouco tempo atrás acreditava - muito mais por crença íntima, que por constatação real - que tudo relacionado a trabalho, estudos, amigos e viagens seria um sucesso. Mas por uma lei própria compensatória o que se relacionava a saúde e relacionamentos amorosos viria sob um véu estropiado.
Assim pensei, assim se deu...

Como aqui não cabe boletim de ocorrência não falarei das vinte e sete cirurgias que me submeti. E a sequência de desastres amorosos não é meritória de nota.

Porém desilusão amorosa sempre está em voga, segue uma poesia de 2006 que exprime isso e me escusarei de explicar mais ...


AOS HOMENS DA MINHA VIDA
(reais e imaginários)

Mesmo sem querer,
vez por outra te encontro,
numa esquina da mente,
cheirando a guardado,
atrás de um ponto,
sem lugar marcado

Te percebo no gesto ou palavra
que originado de outros,
não tem mais tua magia
Te sinto também, naqueles dias
em que a nossa música
ganha alma própria
e a melancolia
se apossa de mim

Encontro, ainda, no cheiro
que ficou no meu corpo,
por muito, muito tempo,
e se escondeu num sótão
para me atormentar
nos dias de faxina

Queria ter ficado contigo
Para sempre!!!
Mas, em algum dia, por alguma razão,
não tivestes força de me segurar
Então me perdi de mim...
E tive que ir atrás

E foi para continuar sendo eu
que deixei de ser nós
E foi para continuar sendo eu
Que fui pra não voltar



Bem,
A vida rodou principalmente depois que revi meus paradigmas.
- A saúde? Vai muito bem agora.
- E o amor? Agora creio ter encontrado do meu lado o que procurei tão distante... essa poesia é uma continuação da outra e foi feita para o melhor amigo de vários anos, para o companheiro dos últimos meses, para o amor de agora...


AO SOL DA MINHA LUA
(Para meu homem pré-histórico)

Em teus braços
esqueço todas as regras
Tiro a máscara de visita
deixo do lado de fora a fera
Descanso garras e armas
dispo-me das tintas de guerra
Guardo o escudo protetor
misturo-me às cores da terra


Indomavelmente sucumbida
permito-me ser fraca, carente
ingênua lua sorrindo
dou adeus a títulos, direção
Viajo completamente nua
Exorcizo competição
Entrego-me ao eu que me dás
reconheço-me em tuas mãos


Sou fracasso e sucesso
no mesmo lado da moeda
não tenho medo de perder
Sou o que teus olhos refletem
No outro lado és tu
incansavelmente confuso
paradoxalmente seguro
meu horizonte a correr

Em teus braços posso ser eu
Sem medo de me perder...

04.11.2008

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Novamente Mauina




Mauína é minha cidade imaginária que criei no fim de 2007, quando o desafio da oficina literária era escrever sobre o vento.

E para que não navegues no escuro vai aí uma amostra desse meu mundinho onde eu aporto quando estou afeita a solitude ou apenas querendo voar...



O Vento de Mauina


Meu pai contava uma história de um lugar mágico onde existiam plantas que produziam uma variedade de frutas numa única árvore - tipo goiaba, carambola, maçã e jaca, num pé só - e do tamanho da nossa fome. Onde dos rios jorrava água mineral e das cachoeiras sucos de frutas coloridos e as cacimbas ofereciam, à distância da mão, chocolate quente. Lá podíamos colher sorvetes, pirulitos e algodão-doce nos galhos das árvores. Além disso, havia muito sol e as brincadeiras eram a única labuta diária; nem preciso falar que não lá não existia escola ou trabalho. E esse lugar se chamava Travinel.
Travinel ocupava meu principal foco nos sonhos da infância. Era como a Pasárgada do Manuel Bandeira. E coincidentemente ambos – Bandeira e meu pai- eram pernambucanos. Vai ver que havia algo misturado na água pernambucana que faziam as pessoas sonhar com o impossível..., o que já explicaria também essa minha mania de utopias...
Mas, dizem os antigos, que há umas três léguas de Travinel encontrava-se a cidade de Mauina, um pequeno povoado onde as casas não tinham telhados, pois nunca havia chovido no lugar. Somente os mais velhos que tinham registrado nas rugas suas andanças por outras paragens é que falavam da chuva. A geração mais nova pensava que a chuva era algo sobrenatural como fadas, gnomos, bruxas...
Em Mauina o calor durante o dia era intenso, e apesar de ser uma região de muitos coqueiros não havia vento nas árvores. As folhas ficavam estáticas como se pesassem toneladas, cada uma.
Durante o dia os moradores cuidavam de se ajeitar com o calor do jeito que podiam. Os homens que quase todo dia ficavam por conta da agricultura de vez em quando se refrescavam nos inúmeros riachos e córregos da região. As mulheres entre o fogo das panelas alternavam as lavagens de roupa e as prosas embaixo das mangueiras para se refrescarem. E as crianças ninguém sabia onde andavam, mas sempre davam um jeito de tapear o calor, visto que quase sempre chegavam com as roupas enlameadas.
Mas a cidade passava o dia em estado de alerta como ficamos quando estamos esperando chegar a hora de um encontro marcado.
Este encontro acontecia à noite por volta das oito horas quando vinha surgindo devagarzinho um vento que inebriava toda a cidade.
Os moradores já haviam me falado:
- Dona, o vento vem do mar, que fica a uns quatrocentos quilômetros daqui, por isso que só chega à noite, pois passa o dia viajando e arrasta consigo tudo que encontra no caminho trazendo esse cheiro de mistério e aventura.
O vento chegava pontualmente, se infiltrando nas casas que sempre estavam de portas abertas. Ele sacudia o cabelo das mulheres e rodopiando ao redor dos corpos penetrava entre as pernas das moças levantando suas saias e as convidando para sair.
Nessa hora começava um assobio como se estivesse chamando todos para uma festa e as pessoas que estavam engaioladas nas suas casas saiam à rua para conversar na calçada.
As crianças ao ver seus pais ocupados em alegres conversas nos terreiros aproveitavam para brincar de pique - esconde, cirandas de rodas e todas as possíveis brincadeiras infantis.
E as moças e rapazes aproveitando a distração dos mais velhos, e justificando os hormônios em alta, sumiam nas asas do vento para os lugares mais escuramente distantes que podiam encontrar.
Às dez horas o vento atingia o clímax e se podia sentir um calor frio, gostoso, que percorria todo o corpo e várias conversas eram deixadas pela metade na ânsia de dar vazão a este calor.
Mas por volta de meia-noite o vento começava a dar adeus e ia embora devagarzinho, se despedindo de todos, assumindo o compromisso de voltar no dia seguinte trazendo o cheiro do mar e o gosto das seduções.
Conto de Jeanne Maz

O desafio era VACA, pode?


Para Oficina Literária, 09/02/2009


O exercício era criar um texto com a palavra : VACA. Ai,ai,ai, para uma urbana como eu que quase só vejo vaca em filmes foi difícil. Mas lá vai o fruto desta aventura, que passa em Mauína...

VACA AMARELA

Sentada na minha escrivaninha arrumando os livros intocáveis que ainda tencionava ler, aguardava o chamado da noite que vinha nas asas do vento. Quando de repente ele chegou à forma de vozes infantis, alegres e dissonantes, trazia consigo a cantiga: “ vaca amarela pulou da janela, quem falar primeiro come a bosta dela”
Retrocedi imediatamente à infância e relembrei essas brincadeiras, parcas e sempre às escondidas que disfarçavam a infância pobre e carente de afetos, mas que por serem tão raras tinham sempre sabor de fruta roubada.
Quando com os primos à primeira vez que ouvi esta frase, com uns nove anos, me calei de verdade e acostumada que era com o silêncio, eu quase sempre me consagrei campeã quando o lance era ficar quieta. Acredito que mais por compensação da estática minha imaginação sempre voou livre e me pus a pensar numa vaca amarela, imensa, volumosa, com jeito de animal de livros infantis- que era a única forma de vaca que eu conhecia - pulando sorridente a janela. É na minha visão a vaca pulava quase voando no maior sorriso e muito feliz por estar indo embora. Muitas vezes no meu postigo quis ir com ela...
E de pulo em pulo, em várias esquinas percorridas, não é que me deparei no ano passado com uma vaca amarela posta num museu? Verdade! O quadro feito pelo artista alemão Franz Marc foi dado como presente de casamento para sua segunda esposa e seu grande amor. No quadro Vaca Amarela via-se ao centro uma vaca que para o artista era o símbolo da vida. O amarelo simbolizava o feminino, a espiritualidade e a alegria do momento íntimo. O seu enlace permitia a vida e o feminino adentrar na sua criatividade e lhe sorrir como a vaca, dando coices no ar.
Fiquei pensativa olhando para o lindo quadro e embora a vaquinha também me sorrisse, eu é que sorri para mim pensando na mudança temporal de costumes. Imaginei a repetição desta bizarra cena nos dias atuais e a noiva, independente de classe sociocultural, ao receber o quadro automaticamente arengar: Que será que ele queria dizer me dando um quadro de uma vaca? Será que queria dizer que estou gorda? pesada? cheinha? ou está mesmo me chamando de vaca? E inevitavelmente o quadro seria destruído. Bem, era até capaz de o casamento também.
Mas felizmente Maria Franck não pensou assim e viveu com o amado pelo restante da curta vida dele, tornando-se imortal em suas telas. E no mutismo contemplativo agradeci a ela o prazer de reencontrar a minha amiga da infância.
Porém agora ouço novamente o vento cantante com nuances infantis me chamar e não consigo mais resistir...

De um momento perfeito... que realmente existiu



O exercício era criar um texto (pequeno, ou não) de chofre, sem parágrafos, uma explosão de idéias, um vômito liberado, sem amarras...

Eis aí o filme, sem revisão e sem cortes...

DE UM MOMENTO PERFEITO


Toda pequena alegria da sua vida havia passado rapidamente, assim como passaram os enganos, desejos, as primaveras, os domingos... e agora aquela felicidade chegava não em pequenas amostras voláteis mas sim embalando perenemente as retinas e a desconcertava, pois a jogava num caminho novo, como se cega estivesse, e sem guias, e ela não podia acreditar que isto acontecesse na sua vida e mais difícil era confiar que permanecesse assim, o medo era de ser castigada com uma infelicidade maior quando descobrissem o engano. Até conversou com uma amiga sobre isso que levantou um pensamento no mínimo engraçado “ É verdade, você tem razão: Deus deve ter errado de programação, leu o script errado, pois o seu destino é ter uma vida complicada e infeliz sempre, então munida de toda sua capacidade que é maior que a divina, a sua função é consertar esse engano de Deus. Escreva uma carta de reivindicação solicitando que ele reveja a sua sorte, que ele pare de cometer erros e mande a felicidade para outra pessoa” . Sim, o pensamento era ridículo, mas durante muito tempo era difícil para ela acreditar que “ser feliz é o normal” e que anormal é viver infeliz. Mas agora ela sabia estar vivendo um estado inesgotável e sublime e a lembrança doce do momento atípico em que os elos se uniram e a magia se instalou era um espetáculo único, um delírio emotivo que a inebriava freqüentemente, pois já estavam juntos há alguns meses e todo percurso dos dois foi uma estrada ascendente de expectativas até chegar ao platô confortável em que se encontrava desde então e as imagens viam como um retrato vivido várias vezes, mas que causava um encanto maior cada vez que era visitado. “Naquele momento eu soube que havia estado viva e percorrido estes anos de batalha para estar pronta para viver com ele, para compartilhar cada experiência, cada dor, cada sorriso e percebi isso no instante em que tudo foi perfeito - simples e perfeito - como tinha de ser. Fui para o jardim dele e peguei inúmeras sementes da planta que estava exuberante naquele início de verão, a chuva de ouro, e sem me dar conta do porquê resolvi retribuir toda felicidade e presentear a natureza polinizando uma estrada,como se pássaro eu fosse, e sem precisar pedir ele já era o co-autor da aventura o cúmplice da felicidade e do ato, ele dirigindo o carro devagar, margeando a estrada para que eu pudesse jogar as sementes, criamos então um caminho dourado que ligou o jardim dele ao meu e com isso a nossa aliança estava selada e inquebrantável. Naquela viagem viramos pássaros e resolvemos voar juntos.
Texto de Jeanne Maz

O que vem para ficar


Uau!!!
Decidi que este ano de 2009 será diferente...então comecei fazendo promessa - vixe Deus mania de nordestina, eu com promessas de novo! - mas é que prometi seguir todos os exercícios da Oficina Literária que participo há uns dois anos e o resultado semanal será postado aqui. Pra não chatear o santo, apesar de crer piamente ter um crédito extra lá em cima é bom cumprir os acordos feitos.
E contra a monotonia de vez em muito espero mostrar também outros textos não alavancados à oficina, textos sobre artes e as produções visuais que meu apoucado tempo permitir...
Beijo carinhoso,

jeanne maz